A
revisão bibliográfica é a base que sustenta qualquer pesquisa científica.
Acredite: algumas horas a mais na biblioteca podem poupar alguns meses de
trabalho no laboratório ou a campo. Para conseguir avançar em determinado campo
do conhecimento é preciso primeiro conhecer o que já foi desenvolvido por
outros pesquisadores.
Realizar
uma pesquisa bibliográfica faz parte do cotidiano de todos os estudantes e
pesquisadores. É uma das tarefas que mais impulsionam nosso aprendizado e
amadurecimento na área de estudo. Atualmente, as bibliotecas digitais têm
facilitado e simplificado muito essa tarefa, pois trazem recursos de busca e
cruzamento de informações que facilitam a vida de todos.
Mas
as novas tecnologias não resolvem tudo. Por isso, preparamos este guia com
algumas considerações importantes sobre as revisões de literatura.
1 1. Saiba
aonde quer chegar
Todo
texto acadêmico precisa de um “fio condutor”, uma linha de raciocínio que guie
a leitura do texto, levando o leitor das premissas às conclusões. Assim, antes
de começar a revisão de literatura, leia os chamados “livros clássicos” sobre o
tema, para descobrir/relembrar os conceitos e as ideias principais relacionados
ao seu trabalho.
Com
uma visão geral sobre o tema, e com os pontos principais em mente, é possível
elaborar um roteiro para a revisão de literatura, com os itens e subitens que o
texto deverá ter para chegar à sua conclusão. Este roteiro é de grande ajuda
para manter o foco e não se perder em meio à enorme quantidade de informações a
que temos acesso.
O
segredo de uma boa revisão de literatura é a organização e o planejamento.
2.
Selecione as fontes de referência
As
principais fontes a serem consultadas para a elaboração da revisão de
literatura são artigos em periódicos científicos, livros, teses, dissertações e
resumos em congresso.
Como
atualmente existe uma exacerbada pressão por publicação de artigos científicos,
é bem provável que aquela tese ou dissertação tenha sido publicada também na
forma de artigo, assim como os resumos de congressos.
Desta
forma, recomenda-se a preferência por artigos publicados em periódicos
científicos, com comitê de editores e processo de revisão por pares. Uma boa
dica é observar com cuidado as referências bibliográficas de textos já
publicados sobre o tema e, desta forma, identificar os autores e os periódicos
que são referência na área.
Dê
prioridade (nesta ordem) a:
(i) artigos
publicados em periódicos internacionais;
(ii) artigos
publicados em periódicos nacionais reconhecidos;
(iii) livros
publicados por bons editores;
(iv) teses e dissertações,
(v) anais
de conferências internacionais;
(vi) anais
de conferências nacionais.
Tome
cuidado com referências antigas. A ciência traz novidades em um ritmo
relativamente rápido, por isso deve-se evitar utilizar referências com mais de
dez anos. Se possível, e isso irá depender do tema pesquisado, tente concentrar
a maior parte das citações com menos de cinco anos.
3.
Escreva de forma clara e objetiva
Evite
apresentar a revisão da literatura no formato de ficha de leitura (isto é, o
autor “A” disse isso, o autor “B” disse aquilo, o autor “C” disse outra coisa,
etc.). Encontre os pontos de concordância e divergência entre os autores e
conte a história da pesquisa. Um exemplo de texto do tipo “ficha-de-leitura” é:
Segundo
Shingo (1996), a idéia central do Sistema Toyota de Produção é promover um
fluxo harmônico dos materiais entre os postos de trabalho, produzindo
componentes nas quantidades e nos momentos em que são necessários. Para tanto,
a comunicação entre postos de trabalho deve ser promovida de forma eficiente.
Para
Ohno (1994), o Sistema Toyota de Produção pode ser resumido como “produzir nas
quantidades certas e no momento em que as partes são necessárias”. O autor
frisa a importância do fluxo de informações entre os trabalhadores nas
diferentes células ou postos de trabalho.
Observe
como os dois autores estão dizendo essencialmente a mesma coisa, apesar de
manifestarem suas ideias de maneira diferente. O seu trabalho como pesquisador
é compreender qual a ideia central, identificar os pontos divergentes e pontos
em comum entre os autores e escrever de forma clara e objetiva. Os parágrafos
acima poderiam ser resumidos da seguinte forma:
A
ideia central do Sistema Toyota de Produção é promover um fluxo harmônico de
materiais entre os postos de trabalho, produzindo componentes nas quantidades e
nos momentos em que são necessários. Neste sentido é importante promover um
fluxo eficiente de informações entre trabalhadores nas diferentes células ou
postos de trabalho (SHINGO, 1996; OHNO, 1994).
Veja
como o texto fica mais fácil de ler, contendo as ideias comuns a ambos os
autores expostas de maneira direta, sem repetições. Além disso, os parágrafos
não iniciam com “Segundo Ohno (1994)” ou “Para Shingo (1996)”, ou “De acordo
com Shingo (1996)”, que são formas não muito elegantes de redação.
4.
Organize os trabalhos consultados
Para
a elaboração de uma boa revisão de literatura é preciso pesquisar, selecionar e
ler uma grande quantidade de artigos, livros e resumos. E uma boa organização
deste material irá facilitar encontrar determinada ideia ou um autor específico
em meio aquela salada de PDFs.
Existem
várias ferramentas que permitem gerenciar sua coleção de referências
bibliográficas e que podem facilitar seu trabalho. São os Gerenciadores de Referências. Exemplos
importantes são o JabRef, ferramenta em código aberto e muito útil
especialmente para quem trabalha com LaTex, e o EndNote.
Essas
ferramentas permitem obter os dados das referências diretamente nas bibliotecas
digitais, criam uma base de dados com essas informações, permitem inserir as
citações e referências diretamente nos textos que estão sendo editados, e
também organizam a coleção de textos originais dos artigos. A longo prazo, sua
base de dados mantida por um gerenciador de referências é um recurso muito
valioso para procurar referências para citar em seus textos.
5.
Evite os principais erros
Errar
é humano, mas a banca avaliadora do seu trabalho normalmente desconsidera este
tipo de fato. Sendo assim, consulte sempre o seu orientador sobre a
possibilidade de estar cometendo algum dos erros abaixo:
>>
Revisão muito breve (por pressa, falta de tempo, desinteresse, etc.); obras e
autores essenciais não foram incluídos no trabalho.
>>
Revisão construída em cima de muito poucos autores ou estudos. Normalmente,
este erro ocorre em paralelo com o primeiro erro, acima.
>>
Áreas afins não foram abordadas.
>>
Referências incompletas ou erradas, indicando que você na realidade não
conseguiu encontrar um fio condutor nas obras que consultou.
>>
Ausência de uma seção de conclusões que reúna as ideias principais abordadas no
texto.
>>
Má organização do material: revisão com seções muito curtas (com um ou dois
parágrafos, apenas), com repetição de ideias (o estilo “ficha-de-leitura”), ou
sem uma estrutura ou lógica identificável de apresentação.
>>
Interpretação ou adaptação de ideias de outros autores para que elas fiquem
parecidas ou reforcem as suas.
(Texto
adaptado por José Luis Duarte Ribeiro a partir do original elaborado por Flavio
Fogliatto e Giovani da Silveira.)